AMIGAS DE INFÂNCIA
Silvana Duboc
Eu tinha doze anos quando a conheci, ela somente quatro, mas embora a diferença fosse grande ficamos amigas.
Sempre nos encontrávamos no banco de uma floresta que havia próxima da nossa casa e ela chegava com aqueles cabelinhos dourados, bem lisos, de franjinha e um arquinho para emoldurar o seu rosto.
Trazia sempre nas mãos a sua marca registrada, um ursinho de pelúcia, por isso até apelidei-a de Ursinha.
Me lembro que ela era tão pequenina que quando sentava ao meu lado no banco seus pézinhos não alcançavam o chão.
Eu como era mais velha sentia-me sempre na obrigação de olhar por ela, cuidá-la e protegê-la. Ela era inocente e eu infelizmente não tinha mais a sua pureza porque já havia descoberto algumas coisinhas da vida, pequenas coisinhas, que eu considerava enormes.
Mas ficávamos lá na floresta sentadinhas no banco e certo dia colocamos até um nome naquela floresta, Minha Sua Nossa, é, daí em diante ela passou a ser a nossa floresta. Conversávamos, contávamos segredos, dizíamos muita besteira, dávamos grandes gargalhadas e nunca tínhamos vontade de ir embora uma da outra.
Um dia quando estávamos por lá apareceu um homem, nos disse ser fotógrafo e que éramos lindas e que gostaria de tirar uma foto nossa. Ela teve um pouco de medo, mas eu a acalmei e expliquei que uma foto não teria nenhum problema, seria apenas uma recordação para nós duas no futuro.
Então ela se ajeitou no banco e meio assustada fez pose agarrada ao seu ursinho e eu ao seu lado fingi tranquilidade.
Engraçado, tenho comigo essa foto até hoje e já se passaram trinta e cinco anos. Reparo como estávamos sérias na foto, assustadas mesmo.....mas realmente, éramos lindas e só hoje descobri porque éramos tão lindas, porque éramos amigas e uma amiga reflete na outra a beleza.
Fico me perguntando que rumos a vida dela pode ter tomado, pois nos perdemos no tempo.
Sei que hoje, pelas minhas contas, ela é uma mulher de 39 anos. Imagino que deva continuar com aqueles cabelos lindos e loiros, mas acho também que devem ter encaracolado um pouco.
E as bochechas? Será que continuam rosadas no meio daquela pele tão alva?
Como era uma menina muito criativa e esperta penso que a profissão dela tenha algo a ver com criação, talvez uma designer gráfica.
Penso também, que deva ser uma excelente filha para seus pais, pois era uma criança muito amorosa........amorosa porém reservada, não se entregava a qualquer um facilmente. Deve ter poucos amigos, mas à esses poucos, deve se dedicar muito.
Quanto a mim, me tornei escritora e ela nem sabe que tantas vezes foi minha musa inspiradora.
Ah que saudades dela....gostaria de hoje, com meus quarenta e sete anos, reencontrá-la.
Imagino que ela viria até mim com aquele mesmo brilho no olhar, o seu ursinho nas mãos e me diria:
Kirid@@@@@@ eu nunca lhe esqueci!
Então eu a abraçaria com a maior ternura e talvez nem conseguisse pronunciar nenhuma palavra, apenas pensaria:
Que alegria poder rever a minha Ursinha!